Imóvel da Rua Fernandes Pinheiro nºs 74 e 80

Processo: 93/2001


Este imóvel em estudo é um sobrado em alvenaria de tijolos, com dois pavimentos, construído em 1910, conforme data registrada em relevo em sua fachada. Atualmente pertence ao Sr. Aniceto Sanson, comerciante aposentado, e à sua esposa Santina N. Sanson, residentes nesta cidade. O Sr. Sanson adquiriu-o em Janeiro de 1955, mas antes disso já alugava o imóvel e era o proprietário de um estabelecimento comercial que funcionava no andar térreo: a loja de confecções “Novo Mundo”, que funcionou até 1980. Ancieto Sanson é filho de imigrantes italianos que, no início do século XX, fixaram-se no município de Palmeira, e na década de 1930 vieram resistir em Ponta Grossa; hoje, com 84 anos, Ancieto Sanson reside em Ponta Grossa e declara-se contrário ao tombamento do imóvel.
Os proprietários anteriores do imóvel eram o Sr. Fredolin Costa e sua esposa Lucila de Souza Costa, que na década de 1950 residiam em Curitiba. Ancieto Sanson, como locatário e depois proprietário, residiu com uma família no andar superior do edifício.
Hoje, o sobrado sobressai-se entre outros imóveis como um pequeno edifício de arquitetura peculiar, remanescente de uma época em que a Rua Fernandes Pinheiro, diante da Praça João Pessoa e do magnífico prédio da estação ferroviária, era parte significativa da vida social e política não apenas de uma cidade mas do país; afinal, pela estação ferroviária passaram figuras ilustres de nossa história como o presidente Afonso Penna, o Marechal Cândido Rondon (1924), o Presidente Getúlio Vargas, o General Castello Branco, a maioria dos governadores do Estado do Paraná, além de diversos artistas e tantas outras personalidades de renome. Ali também ocorreram fatos marcantes como “a batalha da Rua Fernandes Pinheiro” durante a Revolução de 1924, entre ferroviários e componentes do Batalhão comandado pelo capitão Paes Leme; depois, a chegada do então General Rondon chefiando a operação contra os revolucionários; e principalmente o lendário discurso proferido por Getúlio Vargas da sacada do Hotel Franze, em 1930, sobre o qual escreveu o cronista Vieira Filho:
“Conta a tradição, que quando Getúlio Vargas iniciou sua jornada revolucionária rumo ao Palácio do Catête, já quase vitorioso, chegou em Ponta Grossa no dia 17 de outubro de 1930, para aqui sediar seu Quartel General por alguns dias. (…)
Dizem que a cidade parou expressiva parcela da população e foi até a gáre ferroviária para recepciona-lo entusiasticamente e que ele e sua comitiva, sem nenhuma segurança, caminhou entre vivas e aplausos, naturalmente com foguetórios e foi a pé até o Hotel Franze que teve a hora de hospedá-lo.
Diz a tradição, que o povo aglomerado defronte o conceituado estabelecimento hoteleiro continuava aplaudindo e vivando o vitorioso revolucionário e os líderes militares e civis que deflagraram a revolução de 1930.
Foi então que o grande líder populista, com aquele carisma que lhe valeu permanecer tantos anos governando nossa Pátria, assomou àquela sacada e dali fez memorável discurso ao povo princesino, que segundo também dizem os contemporâneos, teria sido a ocasião em que nos batizou como “Capital Cívica do Paraná”. (VIEIRA FILHO – Perfis da Cidade, Jornal Diário dos Campos, 04 de julho de 1983).

Tudo isso pôde ser testemunhado pelas pessoas que frequentavam a rua Fernandes Pinheiro, e principalmente por aquelas que ali residiam ou hospedavam-se, e tiveram o privilégio de observar, das sacadas daqueles sobrados, a movimentação da estação, como se assistissem de camarote a um espetáculo único da História.
O Hotel Franze ao qual o cronista refere-se é o Hotel Guzzone, construído em 1900, que mudou seu nome para Hotel Franze e mais tarde para Astória, foi demolido em 1983, apesar de sua beleza e imponência; ficava próximo do sobrado do Sr. Sanson. Do cenário histórico original entre o Edifício Central da Estação ou Estação Saudade, já tombada como Patrimônio Histórico do Estado, e as construções da Rua Fernandes Pinheiro, resta parte do largo calçado com paralelepípedos – onde ficavam as charretes, caleças ou carros de aluguel- e algumas poucas casas e sobrados antigos, dos quais o imóvel em questão é o mais alto.

Pesquisadora – Isolde Maria Waldmann