Imóvel da Rua Santos Dumont, nº 524 (Casa do Divino)

Processo: 03/2001

A casa do Divino foi construída em 1840. Contém doze cômodos no estilo das casas de fazendas antigas, na época de sua construção funcionava uma leiteria e uma estalagem para os tropeiros que chegavam na cidade sem lugar para pernoitar. Pertenceu a família Xavier e a inicial do sobrenome está gravada na fachada.
Possui essa denominação devido a história ocorrida com Maria Julio Xavier, também chamada de “Nhá Maria do Divino”. Essa senhora sofria de distúrbios mentais e num determinado dia saiu de sua casa a pé em direção a Castro. Chegando na fazenda de Carambeí encontrou em um olho d’água uma imagem do Divino Espírito Santo gravada em um pedaço de casco de navio, imediatamente sentiu-se curada, recobrando inclusive a memória. O fato ocorreu em 1882 quando “Nhá Maria do Divino” tinha sessenta anos. Desde essa data até a sua morte com 95 anos trabalhou recolhendo quadros de santos e objetos trazidos por devotos que até hoje fazem parte do acervo religioso da casa, também construiu um altar com um ostensório para que a imagem encontrada ficasse sempre exposta.
A casa possui uma sala conhecida como sala do Divino que abriga, além do altar com fragmento do navio, 102 quadros de santos do final do século XIX e início do século XX, como um quadro talhado em madeira trazido pelos imigrantes poloneses, um quadro bordado pela Baronesa de Guaraúna e presenteado à sra. Felícia, uma pintura à óleo de 1882 retratando o momento que Jesus é descido da cruz para os braços de Maria, quadros de Santo Antônio, Nossa Senhora das Dores, São Jorge e demais santos, 9 imagens religiosas, uma pintura de uma pomba de um artista italiano não identificado no teto da sala e cerca de 2000 cartas fotos deixadas pelos devotos.
Com o falecimento de “Nhá Maria de Divino” a casa passou a pertencer a seu sobrinho Luis Cesário Ribeiro e sua esposa Zerefina. Nessa época teve início a visitação público da capela. Luis veio a falecer em 1921 deixando a administração da casa para Zerefina e seus três filhos.
Juntamente com o D. Zerefina morava sua mãe de criação D. Felícia de Oliveira, muito conhecida na cidade por ter sido escrava de Domingos Ferreira (Barão de Guaraúna). Essa senhora orgulhava-se de ter passado muitos anos na mansão do fidalgo ( seus pais eram africanos e foram escravos em Sorocaba antes de virem para Ponta Grossa) e por ter conhecido D. Pedro II e a Imperatriz Tereza Cristina, que na sua vinda a Ponta Grossa se hospedaram na casa do Barão. “Naquela casa é que eu conheci D. Pedro II e sua mulher, que gente simples. Só não andavam descalço porque era envergonhado, eu lavei a roupa de D. Pedro e de D. Cristina, quantas vazes eles conversaram comigo…”, conta. D. Felícia que veio a falecer em 1941 com 112 anos.
Dona Zerefina casou-se novamente em 1922, seu segundo marido foi o sr. Roldão Rodrigues Chaves. Quando veio a falecer, em 1957, deixou as responsabilidades da casa para uma filha d segundo casamento, chamada Edi Ribeiro Chaves, nascida em 1925.
Dona Edi não teve filhos, com a sua morte em 1999 deixo a responsabilidade pelas atividades da Casa do Divino expressa em seu testamento para o sobrinho Antônio Edu Chaves Filho e sua esposa, Lídia Hoffmann Chaves.
Quando os sobrinhos vieram morar na casa, em 1994, a mesma estava fechada devido a enfermidade da tia, que não possuía mais condições de atender as pessoas que por lá passavam. Somente foi reaberta em 1996 porque Lídia teve um sonho, no qual surgia uma luz muito intensa por detrás do altar fazendo com que os quadros desaparecessem e uma voz dizendo que aquele era um lugar sagrado onde muitas graças foram concedidas, portanto não poderia permanecer fechado. No dia seguinte Lídia pediu ao Divino Espírito Santo e a Nossa Senhora a cura do seu filho que sofria de uma doença degenerativa incurável nos ossos. A graça foi concedida e a doença nunca mais se pronunciou.
A Casa do Divino continua aberta atravessando mais de um século de existência. Embora a sala do Divino seja um local de devoção da fé católica não está vinculada à Igreja Católica Apostólica Romana. Diariamente entre 10 a 50 pessoas visitam o santuário demonstrando a fé popular da comunidade ponta-grossense, muito procuraram a casa para serem batizados (essa prática também era exercida pelas antecessoras de Lídia), batizarem seus filhos ou agradecerem as bênçãos recebidas.
As mulheres de família continuam cuidando da casa e, mesmo de forma espontânea, se comprometem a dar continuidade a essa devoção que faz parte da religiosidade e do imaginário ponta-grossense.
O culto do Divino tem sua origem nas festas religiosas populares do século XVI, misturando aspectos profanos e sacros do povo brasileiro. O objetivo da festa é a devoção demonstrada por cantores e tocadores de viola e tambores que realizam a chamada “Folia do Divino”. No centro do grupo alguém segura uma bandeira com a imagem do Divino Espírito Santo, chamado também de Imperador. Fazem parte do folclore e da festa ao Divino as cavalhadas, além dos estandartes enfeitados com fitas coloridas e flores, as quermesses e canções.

Cronologia:
1840 – Construção da casa.
1882 – Início das atividades religiosas da casa.
1972 – Falecimento de Maria Julio Xavier, passagem da casa para Luis Cesário Ribeiro e sua mulher Zerefina com a abertura ao público em geral.
1921- Falecimento de Luis Cesário Ribeiro, passagem da Casa para Zerefina Cesário Ribeiro.
1957- Falecimento Zerefina, passagem das responsabilidades da casa para Edi Ribeiro Chaves.
1996- Reabertura da casa que estava fechada por alguns anos.
1999- Falecimento de Edi Ribeiro Chaves, passagem das responsabilidades da casa para Antônio Edu Chaves Filho e Lídia Hoffmann Chaves.
Pesquisadora: Daniele Pereira da Silva.
Supervisora: Elizabeth Johansen Capri.

O fato acontecido se espalhou nas cidades, e as pessoas passaram a bater em sua porta para pedir graças ao Divino D. Maria teve que abrir as portas de sua casa, que passou a se chamar Casa do Divino. Hoje, após 126 anos do achado da imagem, a Casa do Divino continua aberta, se tornando um dos mais importantes patrimônios históricos religioso da nossa região. A casa ainda continua na família, e está na quarta geração, que cuida do local.

Anualmente, acontece a Festa do Divino, em devoção ao Divino Espírito Santo, um patrimônio imaterial de Ponta Grossa, inscrito no livro de Celebrações.