Imóvel da Rua Comendador Miró n° 652, esquina com Pinheiro Machado
Clube Dante Alinghieri
Processo: 78/2001


No final do século XIX, grandes mudanças políticas, sociais e econômicas ocorreram no Brasil, na mesma época em que se dão as grandes imigrações, há também uma intensa movimentação, os espaços vazios vão sendo ocupados, para formação de núcleos coloniais fator decisivo para atrair as populações europeias, que vinham em busca de paz e de trabalho, fugindo das guerras e das pobrezas.
Na Província do Paraná, as ondas imigratórias ocorreram no final do século XIX, quando o Brasil passava por mudanças políticas e econômicas, principalmente com a libertação da escravidão, e com a queda do Império.
Para a divulgação das ideias republicanas em todo o Brasil foram criados inúmeros clubes, principalmente para agrupar os negros e imigrantes e, assim a sociedade poderia ter mais controle sobre essa população. No Paraná essas ideias foram lideradas pelo Dr. Vicente Machado e foram divulgadas nos jornais e através dos Clubes Republicanos, fundados especialmente para a reunir as classes sociais de negros e imigrantes.
Em Ponta Grossa, no final do século XIX, tivemos a formação dos seguintes Clubes Literários e Recreativos: Renascença Polonesa, Clube 13 de maio, Clube Germânia, Clube Sírio Libanês, e o Clube Campos Gerais. Estes clubes tinham a mesma finalidade, ou seja, divulgar a ideologia republicana, nacionalizar e instruir os imigrantes e os negros para que os mesmos se adaptassem à nova realidade.
No início do século XX, a comunidade italiana que já era bem expressiva em Ponta Grossa, criando chácaras e leiterias no bairro de Uvaranas, em 1911, o Clube Recreativo Dante Alighieri. Em 1912, foi inaugurada a escola de língua italiana tendo também as demais disciplinas, passando a funcionar no mesmo edifício.
O Clube Dante Alighieri, mantinha várias atividades como danças, festas comunitárias, homenagens a visitas ilustres, que eram promovidas pelo clube.
Durante a primeira Guerra Mundial, muitos filhos de italianos foram para o front, lutar pela pátria de seus pais. No término da guerra, os que voltaram foram recebidos e homenageados no clube, pela comunidade italiana, que era unida e tinham os mesmos ideais. Nessa ocasião também foi para a Itália, o médico humanitário Dr. Francisco Burzio e o filho do Sr. Eugênio Gambassi.
Tivemos na década de 1.920, a divulgação da ideologia “Facista” principalmente nos países onde haviam imigrado os italianos. O Brasil, foi um desses países, onde houve a entrada de milhares de imigrantes europeus.
Na Segunda Guerra Mundial, somente três sociedades formadas pelos italianos, no mundo, não tiveram suas direções diretorias denominas pelos partidários de Mussolini, o Dulce, que morreu no término da guerra. Em todos os países de imigração italiana há sociedades recreativas, beneficentes, culturais e de auxílio mútuo. A maioria delas, por tradição cultural, adotava como patrono o autor da Divina Comédia, Dante Alighieri de todos os países foram visadas como meio de penetração da doutrina totalitária pregada por Mussolini. Pela doutrina, pelo seu programa expansionista, pela maneira como queira dominar, o fascismo necessitava de adesão dos italianos no exterior, a fim de garantir uma opinião internacional favorável aos seus desígnios.
Mas, nem todos os italianos eram fascistas. Na Itália o fascismo foi imposto a força, milhares de italianos sofreram horrores e outros tantos foram massacrados porque não se conformaram com o fascismo. O caso de Meteotti, deputado socialista, fuzilado nas ruas de Roma, de maneira covarde, assemelhava-se ao de Juarez na França, de Rosa nas ruas de Roma, de maneira covarde, assemelhava-se ao de Juarez na França, de Rosa Loxemburgo e Karl Lebknecht em Berlim, de Garcia Lorca, na Espanha. Do exterior não foram poucos os italianos que viajaram para ver, de perto o novo regime funcionar. Uma grande parte voltava para sua nova pátria com o conhecimento anti-fascista real. Contudo, o maior obstáculo á luta contra o fascismo dentro da Itália consistia no comodismo no adesismo oportunista ao governo que está no poder, no conformismo diante do fato consumado, na franca confecção democrática e, principalmente, no medo. O que passava entre as pessoas dentro da Itália, acontecia nas comunidades de origem italiana, no resto do mundo. Por isso, as sociedades Dante Alighieri, por pressão dos representantes oficiais do fascismo, foram caindo nas mãos fascistas, em todos os países, principalmente onde havia comunidades italianas.
Somente resistiram e lutaram contra a influência fascista três sociedades: uma na Suíça, outra na França e a terceira no Brasil, situada em Ponta Grossa, no Estado do Paraná. Em Ponta Grossa, a sociedade Dante Alighieri de auxílio mútuo lutava e resistia a ofensiva e não entregava a direção aos partidários de Mussolini.
Dr. Francisco Burzio, italiano e médico cirurgião, amado pelo povo da comunidade italiana e contando com real prestígio na sociedade pontagrossense. Esse médico aderiu ao fascismo vitorioso na Itália e, como o consulado, pretendia transformar a sociedade Dante Alighieri num centro de propaganda do fascismo. Para isso, convocou uma assembleia para administrar e admitir novos sócios, todos fascistas. Com trinta sócios, mais ou menos, os fascistas conseguiram a maioria e, portanto o controle da sociedade. Acontece que o sócio Bortolo Ranni alertou o presidente Barchi dessa manobra e, com outros antifascistas se puseram a fazer propostas também para a inclusão de novos sócios, porém contrários ao facismo.
A luta prosseguiu entre as facções durante três anos, inclusive no Judiciário. A corrente fascista contratou o advogado Miguel Quadros para apossar-se da sede social, os antifascistas recorreram ao advogado Faraco. Houve interdição da sede, com lacre das portas, pela justiça. Apesar disso, a reunião da diretoria e as assembleias dos antifascistas se realizavam em público, na Praça do Rosário, até em dias de chuva. A batalha continuou no foro e depois de muitos anos a justiça deu ganho de causa aos fascistas. De uma petição dirigida ao Dr. Juiz de direito da Comarca consta o seguinte tópico que bem esclarece o método usado pelos fascistas “Conforme verifica-se dos autos, em abril do ano próximo findo (1929), sérias divergência surgiram entre os sócios da Sociedade Dante Alighieri de mútuo Socorro, com a sede nesta cidade, motivada pelo fato de o Dr. Francisco Burzio e outros pretenderem implantar no seio dela a ideia estrangeira, conhecido entre nós pela denominação de “Fascismo”. Repelida essa atitude anti-parabólica, pela maioria dos sócios que são brasileiros natos foi a repulsão amparada para os velhos italianos fundadores da sociedade, sob a ponderação de que justo não era que se ofendesse a pátria de seus filhos com política estrangeira. Procuramos então, os fascistas, por todos os meios ao seu alcance, tumultuar a vida da sociedade a ponto de, por meio de violência manifesta, impedirem a entrada dos suplicantes e de muitos outros sócios, a fim de exercerem os seus direitos Consagrados expressamente em lei”. Dos autos de manutenção de Posse, requerida em 03/02/1929, pela sociedade Dante Alighieri, em Ponta Grossa.
Ganha a batalha antifascista em Ponta Grossa, Eugenio Bocchi, Vicente Motti, Bortolo Ranni e seus companheiros resolveram mudar o nome da sociedade para “Concórdia” suprimido o rigorismo de só italiano e filhos de italianos a ela pertencentes. Pretendiam os vitoriosos assim admitir brasileiro e sócios de outras nacionalidades para contrabalançar as investidas do fascismo que na Itália se consolidara. Para essa forma, os antifascistas de Ponta Grossa conseguiram conquistar para o Brasil a honra de figurar entre os poucos países em que o fascismo não dominou a tradicional agremiação, porque soube lutar galhardamente, com sacrifício enorme, sofrendo horrores, ameaças de morte, de sequestro, de torturas. Estavam conscientes e suficientemente convencidos que empreendiam a boa luta e por isso venceram, dando ao Brasil uma posição de honra e destaque, com admiração dos democratas da Suíça.

Pesquisadora – Esolde Maria Waldmann