Imóvel da Rua General Carlos Cavalcanti esquina com Rua Antônio Branco, nº 361
Processo: 08/2003

A proposta de tombamento definida atualmente apresenta o patrimônio histórico como composto por exemplares arquitetônicos e documentais representativos de poderes institucionalizados, sejam eles públicos ou privados. A partir de então, tornam-se construtores de imagens capazes de recuperar especificidades das transformações sociais pelas quais passou a cidade, o estado e o país. O tombamento transforma esses exemplares escolhidos em fragmentos eleitos para recuperar e manter a história de uma determinada comunidade, materializando um ponto de vista particular sobre um tema ou período. Diante desse pressuposto, entende-se como primordial o tombamento da Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição como um elemento identitário da comunidade de Uvaranas.
Por volta de 1900, o bairro de Uvaranas também era conhecido como Colônia Uvaranas, devido a grande quantidade de chácaras ocupadas por imigrantes, principalmente italianos, poloneses e alemães. Em suas propriedades, os europeus e seus descendentes dedicavam-se preferentemente à agricultura e pecuária. Estando distantes da região central da cidade muitos de seus habitantes tinham dificuldade em participar dos ofícios religiosos realizados na Paróquia de Sant’ana, por isso iniciaram um movimento para construir uma capela que atenderia as necessidades da comunidade.
De acordo com o Livro Tombo, em 1924, moradores reuniram-se com o intuito de construir um tempo em honra a Imaculada Conceição. A Senhora Ana Rita Ribas Guimarães, “que foi uma grande benfeitora, além da área do terreno para a construção da Capela, doou também, uma imagem da Nossa Senhora da Conceição”. A partir de então, muitos moradores participaram com donativos e mão-de-obra para erigir a capela da madeira. Destacam-se: Jacob Nadal, Domingos Nadal, Bortôlo Nadal, Paulo Zarpelão, Isidio Sarigheli e “muitos outros membros da colônia italiana aqui domiciliada”.
Em 19 de outubro de 1927, o tempo foi bento por ordem do Bispo da Diocese de Curitiba, a qual Ponta Grossa pertencia, D. João Carvalho Braga. A solenidade foi presidiada pelo Pe. Martinho Weber, vigário da Paróquia de Sant’Ana. Dessa forma, a capela apresentava acomodações necessárias para realizar os ofícios religiosos, como a Santa Missa, que somente era celebrada aos domingos, sempre com autorização do vigário.
Devido o crescimento populacional do bairro e, por consequência, dos participantes da capela, em 1929, iniciou-se a construção de um novo templo, desta vez em alvenaria. Durante os primeiros anos da década de 1930, as obras prosseguiram com a colaboração de fazendeiros e moradores da comunidade, que doaram animais para a realização de churrascos e prendas para as quermesses organizadas pela Comissão encarregada da administração das obras. As missas continuaram a ser “oficiadas na capela de madeira que ficava no meio da construção onde abrigava todos os fiéis”. Em 1932, a Igreja, parcialmente concluída, foi entregue aos fiéis. A partir de então, as missas eram celebradas no altar-mor, que apresentava as condições necessárias para a realização dos atos religiosos.
Entre os anos de 1934 e 1947, a Capela funcionou esporadicamente, tendo seus ofícios realizados pelos padres da Congregação do Verbo Divino, responsáveis pela Capela e, posteriormente, Paróquia do Rosário. Segundo Margarida Caos, nessa época a “Igrejinha já era de material, o assoalho era de madeira, os santos ficavam no chão, pois ainda não existia suporte para apoiá-los e no altar ficava a capelinha de madeira com a imagem de Nossa Senhora da Imaculada Conceição”.
De acordo com o Livro Tombo da Paróquia, a comunidade do bairro de Uvaranas construiu ao lado do templo o Clube Santa Cecília, para a realização de festas de casamento celebrados na Igreja além de outros eventos sociais. O primeiro casamento realizado na Igreja foi de Bento Ferreira de Andrade e Henriqueta Nadal de Andrade. Muitos desses eventos contavam com a participação da Banda do 13º Regimento de Infantaria ou então, do Coral Santa Cecília, criado em 1930 por Agenor Veiga e formado por habitantes da região.
Em 30 de janeiro de 1948, o Bispo Diocesano D. Antônio Mazzarotto entregou a administração da Reitoria de Nossa Senhora Imaculada Conceição a responsabilidade da Congregação dos Padres Capuchinhos, representada naquele momento por Frei Carlos.
Durante o ano de 1951, a Igreja passou por modificações dirigidas por Frei Ambrósio. Com as obras foram construídas duas capelas laterais e uma cinta de cimento do alto do muro perimetral. No ano seguinte, a comunidade dirigida pelos senhores Taufik Dejob e José Ribeiro, organizaram uma campanha para adquirir três sinos, um deles foi doado por Bortolo Nadal e colocando na torre do tempo. A inauguração dos novos sinos ocorreu em 1º de junho, contando com a presença do Bispo Diocesano D. Antônio Mazzarotto.
Em 29 de maio de 1955, o Bispo de Ponta Grossa elevou a Igreja de Nossa Senhora Imaculada Conceição a condição de Paróquia atrás do Decreto nº 28, instituído como seu pároco o Pe. Frei Clemente de V. Felicidade. Nesse mesmo ano, foram colocados no tempo caixilhos de ferro, vidros martelados coloridos, lâmpadas fluorescentes e “foi comprado o aparelho de Alto Faltante para animar as festas”.
Em todos esses momentos encontra-se sempre de forma marcante a presença da comunidade, seja participando dos ofícios religiosos, das outras atividades desenvolvidas na paróquia ou das festas e campanhas para arrecadação de verbas. No entanto, essa “presença” também pode ser encontrada nas lembranças de antigos moradores como Décio Borsato: “Minha Primeira Comunhão, relembro vendo as fotos, onde a gente conviveu bastante com os colegas que hoje estão aposentados e quando fui coroinha, aprendi a torrar café com os freis e jogava futebol com eles”. No Livro Tombo, encontra-se os registros da aquisição do terreno, ampliação de quadras e construção de estádio de “foot-bool de salão e wolei-bool”, um patrimônio construído para atender as necessidades dos habitantes dessa comunidade.
Anualmente eram registradas pelo pároco as modificações e/ou manutenções que por ventura ocorriam no templo, como a pintura interna do forro e paredes, assim como as aquisições indispensáveis, como a Via Sacra e a cômoda de imbuia confeccionada para ser utilizada na sacristia, em 1958. No ano seguinte, a Paróquia adquiriu mais um lote nos fundos da matriz, pertencente a Bento dos Santos. Em sua ampliação de patrimônio mandou construir um altar de imbuia igual ao existente na Igreja Sagrado Coração de Jesus, para homenagear Nossa Senhora de Fátima.
Quando se analisa a trajetória da Capela e Paróquia de Nossa Senhora Imaculada Conceição, percebe-se o quanto a comunidade do bairro se identifica com a sua história. Décio Borsato exemplifica esse reconhecer-se como um membro participante: ” Vivi a infância, a juventude e até a velhice, tentando prestar serviços para a “Igrejinha” e transmitindo para meus filhos”.Fredrik Barth ao trabalhar como identidade, afrima que o conceito é uma categoria de atribuição e identificação realizada pelos próprios atores, organizando a interação entre as pessoas. As diferenças de categorias não dependem de uma ausência de mobilidade, contato e informação, mas as pessoas (e até grupos) desenvolvem processos sociais de exclusão e de incorporação pelos quais características discretas são mantidas, apesar do fluxo de pessoas que atravessam essas fronteiras. Não é a soma de diferenças objetivas que caracteriza uma identidade, mas práticas que os próprios atores considerem significativas. Em outro trecho de sua entrevista Décio Borsato deixa claro como se processou essa relação da comunidade com a sua Igreja: “A Imaculada Conceição faz parte da cidade, do bairro, é uma marca emocionante na vida da gente, e o bairro significa o berço”.

Pesquisadora: Elizabeth Johansen Capri
Casa da Memória Paraná.