No dia 03 de Fevereiro de 2020 acontece a Sessão Pública de Tombamento do Conjunto Arquitetônico da Rua XV de Novembro. É a primeira vez que acontece o processo em um conjunto de imóveis urbanos em Ponta Grossa. Trata-se da tentativa de preservar cinco imóveis históricos em estilo Art Déco que fazem parte da paisagem, da memória e da identidade local. Nominada em 1920, a rua XV foi palco de importantes eventos políticos e sociais. Os proprietários já notificados estão no prazo para apresentar a impugnação, e terão o documento analisado no dia 27 de Janeiro de 2020, sete dias antes da sessão. “Trata-se de um conjunto de imóveis de grande importância para a história de Ponta Grossa, mas que se isolados não têm a mesma representatividade”, afirmou Alberto Portugal, diretor do Departamento de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura.

O conjunto, que tem características da década de 1920, ainda tem sua volumetria preservada, e já está no inventário municipal de bens materiais desde 2005. O diretor aponta que o tombamento preliminar acontece obedecendo a uma determinação da lei. “Se o proprietário de um imóvel solicitar a remoção do bem do inventário de bens materiais, o conselho municipal (COMPAC) deve avaliar e deliberar. Caso o conselho opte por não remover do inventário, o Departamento tem 120 dias para realizar o tombamento preliminar”, afirmou Portugal.

Foi o que aconteceu neste caso, quando um dos 11 proprietários apresentou uma documentação solicitando a retirada do imóvel da relação.

O evento acontecerá no dia 03 de Fevereiro, em frente ao Cine Teatro Ópera ás 20 horas e será transmitido online pela internet, a exemplo da sessão que ocorreu no dia 30 de Outubro.

Justificativa para o Tombamento do Conjunto Arquitetônico da XV de Novembro

Através deste documento, redigido no ano de 2019, inicia-se a justificativa ao tombamento preliminar do doravante denominado Conjunto arquitetônico da Rua XV de Novembro, compreendido preliminarmente entre as ruas Augusto Ribas e Sant’Anna, lado direito do sentido da via.
No início do século 20, a acanhada Rua XV de Novembro no Centro tornava-se um marco da identidade urbana da cidade de Ponta Grossa. A população urbana crescia freneticamente, passando também a ser moradia de fazendeiros e tropeiros ricos. Isolde Waldmann, pesquisadora do Departamento de Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura, em 2005 apontou que esses mesmos novos moradores abriram lojas e casas comerciais. “E a maior beneficiada com esse desenvolvimento foi a Rua XV, que foi aplanada, cascalhada, recebendo uma nova denominação, numeração e, na década de 1920, calçamento”, afirmou.
Grandiosos acontecimentos políticos, culturais e sociais aconteceram na Rua XV de Novembro, tornando-a palco de momentos históricos, como a Festa do Primeiro Centenário de Ponta Grossa, a  Revolução de 1930, a Revolução Federalista e o golpe militar de 1964.  Além destes marcos na história, diversas manifestações políticas e econômicas colocaram-na como a Wall Street da região. Reflexo disso, ainda é possível observar a grande quantidade de escritórios, cartórios e conjuntos comerciais. 
Fora considerada a mais importante rua comercial de Ponta Grossa, abrigando um ativo centro comercial de compra e venda, com lojas e vendas em diversos segmentos.
Na década de 1930, após o expediente nos escritórios, velhos e jovens se reuniam em rodas de conversa, ultrapassando muitas vezes as 22 horas, caracterizando a via como ponto de encontro. Também no mesmo período, o público iniciava a cultura das apostas nos cavalos, e em vésperas de grandes prêmios eram comercializados números para os sorteios que aconteceriam no Prado de Uvaranas.
Embora haja interferências significativas em parte das construções, ainda é possível observar que as características arquitetônicas em estilo Art Déco permanecem explícitas. É possível observar a influência da arquitetura norte americana em referência ao icônico Empire States Building no frontão do edifício lange, a presença de adornos sutis como almofadas, frisos e os terraços em balanço. A volumetria é contínua no alinhamento predial, com casas de face à rua. Não se pode negar a continuidade da mesma linguagem entre o mesmo lado da rua XV de Novembro entre a rua Sant’anna e a rua Augusto Ribas.
Em 1947, a construção do Cine Teatro Ópera deu início a uma nova linguagem no local, e mais que isso a um novo comportamento na população. A rua XV passava a receber centenas de pessoas que aguardavam filmes e espetáculos acontecerem, e convidava o grande público aos passeios após as sessões.
A modernização da arquitetura local engoliu boa parte das características urbanísticas originais, como por exemplo, no alargamento do passeio, ocorrido na década de 1990. No entanto, a nova configuração garantiu a continuidade do ponto de encontro, com a inserção de bancos ocupados pela população.
São ícones da paisagem urbana remanescente o Cine Teatro Ópera, a Relojoaria Gravina, existente há mais de 100 anos e o Botequim.
Destaca-se também, que ali, no Edifício Lange, o comércio ativo existente na primeira metade do século passado, referenciava-se a atividade como o primeiro shopping da região, ou seja, com oferta de bens e serviços diversos.
Vale ressaltar, que também é argumento decisivo a proximidade com três imóveis já tombados, sendo eles o Castelo dos Baixinhos (mansão Vendrami), o Cine Teatro Ópera e o Botequim, que representam condicionantes de maior responsabilidade na interferência da paisagem urbana e baixo potencial construtivo.
 A perda de boa parte do referencial histórico nesta mesma região, a exemplo do imóvel que abrigava a confeitaria Sonhos e Sonhos, é que faz-se pensar na necessidade eminente de se realizar o tombamento do Conjunto Arquitetônico da Rua XV de Novembro.

Justificativa: Alberto Portugal (Diretor do Departamento de Patrimônio Histórico)

Conselheiro Relator: Carolyne Abilhôa

Folhas do Inventário – análise dos imóveis isoladamente